Uma biblioteca a dizer de gente
- Tatiane Lindemann

- 19 de jan.
- 1 min de leitura
Atualizado: 22 de jan.
Era criança, pequena, reunindo todos os livros que continham a casa, todos que alguma coisa se colocavam a dizer. Vinha bíblia, vinha contos de fada e vinha o manual da televisão. No meio da sala, arrastava as cadeiras e corria com tecidos na mão. De quatro marcos, um retângulo e um pano que passa a cobrir a estrutura donde a biblioteca se instalaria.
Sentada sobre os joelhos, naquela capelinha de escritos, cujas paredes - pesadas cadeiras sustentando lençóis - criavam uma penumbra necessária a que a quietude das palavras viesse se instalar. Bibliotecária que era, criança, construía ali um recanto que, pela quietude que propunha, pouco tinha de luz para ler. Por um impossível que se armava, propunha-se então o possível: que a biblioteca albergasse, mas que desde um fora, se lesse.
E era assim: cada uma ao lado de sua irmã, outra obra, ia construindo mais parede, mais sustância, solidificando a estrutura que visava proteger de tudo. Confiava-se os próprios livros à gravidade desse enquadre de tardes chuvosas.
São muitas as formas de se formar paredes. As catacumbas se constroem com os corpos. Tanto mais mortos, mais túneis para estes assombrarem. Também as bibliotecas criam, labirínticas nas suas extensões, possibilidades de percorrer - pela escrita ou pela rapidez das canelas, o percurso sobre o tempo. A tinta do papel guarda mais que um conteúdo textual: guarda a tentativa do encontro entre abismos. É, pois, fracassada, mas bonita. É com coragem que se fracassa.



