Casa das crianças
- Tatiane Lindemann

- 20 de jan.
- 3 min de leitura
Atualizado: 22 de jan.
No livro Casa das estrelas (2013), o professor e poeta Javier Naranjo se coloca na construção, junto das crianças, de definições para conceitos significantes do mundo. Convoca-as, assim, a pensar em como experimentam suas vidas e podem, desde a sua posição de falantes, dar nome, lugar e construir bordas para suas vivências. Desse encontro, se escreve um livro permeado de infância e transbordante de viver - que apresenta verbetes como se um dicionário fosse a partir das definições que as crianças foram elaborando. Nas palavras que usam e nas construções que fazem, os pequenos mostram o mundo em que vivem. Compartilho com vocês o verbete Corpo:
É parte da cabeça. (Jenny Alejandra Baena 8 anos)
É um rosto que se mexe, ri, entristece e se sente sozinho. (Mary Yuly Vera, 10 anos)
O corpo é a vida de alguém, porque alguém sem corpo faz o quê? (Luisa Fernanda Velasquez, 8 anos)
Útil. (Daniel Florez, 7 anos)
A pele e os ossos. (Gladys Velásquez, 9 anos)
Caminhar, sofrer e molhar o mato. (Jhon Fredy Agudelo, 6 anos)
É como uma coisa que anda em alguém. (Andrés Felipe Bedoya, 8 anos)
Meu corpo é alma. (Juliana Bedoya, 7 anos)
Eu. (Mateo Ceballos, 10 anos)
É no que colocamos a roupa. (Camila Mejía, 7 anos)
Serve para sentir. (Johnny Alexander Arias, 8 anos)
Suporte da cabeça. (Caty Duque, 11 anos)
Engolir comida. (Andrea Buitrago, 6 anos)
É o que nos dá pensamento. (Blanca Nidia Loaiza, 11 anos)
De certa forma, o título do livro remete ao abrigo simbólico que as crianças criam desde a sua posição no mundo. Essa casa - cujas paredes criam espaços, bordas e limites imaginários para os elementos presentes na sua vida - testemunha a potência da criação de cada pequeno no seu entendimento de mundo. Tem um que traz o corpo como constitutivo da cabeça, outra como apêndice, enquanto um terceiro afirma que o corpo é sua vida, perguntando inclusive se há o que fazer sem corpo! Cada resposta remarca elementos que em cada criança estão presentes a partir da sua subjetivação. Ou seja: falam de como cada pequeno, ali, conta do mundo em que vive: de como os elementos do mundo são falados pela sua família, de como ele é tratado e convocado, o que ele tem acesso enquanto informação e de maneira ele organiza esse mundaréu de elementos a partir do seu psiquismo. O que ele escolhe ressaltar? É uma idéia abstrata? Uma sensação? Escolhe um único adjetivo? E qual é? E o que isso pode nos dizer do universo desse pitoco?
Perceba: há muitos elementos comunicantes numa afirmação que um pequeno faz. Há muito elementos comunicantes também nas suas brincadeiras - inclusive quando eles ainda não falam. O acompanhamentos de pequenas crianças vai se dando a partir do brincar - e às vezes, é um brincar ainda sem palavras oralizadas (mas sempre em linguagem). A infância é esse tempo precioso de construção das bases de quem poderemos ser. E relembro, agora, da música "Casa", do Emicida, em que diferenças entre os tempos da infância e da adultez vão se cantando. Em muita ludicidade, Emicida remete ao tempo sem fim da infância , assim como ao processo de abstração que a voz lírica constrói ao contar sobre seu lugar no mundo:
"O céu é meu pai
A terra, mamãe
E o mundo inteiro é tipo a minha casa"

Há um eu lírico que ali abre pra muitas reflexões. A que escolho a partir desses versos é sobre como o eu lírico nos revela, através da canção, que seus referenciais afetivos (o pai-céu, a mãe-terra) passam a acompanhá-lo através da sua construção de mundo. Através da abstração, eles se tornam companhias permanentes através da olhar singular com a qual ele constrói e habita o mundo. Nos seus verbetes, aqueles que foram pessoas de carne e osso com importante papel constitutivo passam a permear sua experiência subjetiva. A "casa", espaço que remete a um abrigo e a uma contenção, fala de paredes que não são rígidas, mas são "tipo" um mundo. As fronteiras desse mundo são assim feitas de metáforas, sensações e dos laços que unem uma pessoal a outra. Acompanhar a infância é testemunhar, com respeito e assombro, a construção dessa geografia pessoal, percebendo que há um cartógrafo em miniatura a desenhar o primeiro e mais crucial dos mapas: aquele que responde, mesmo que tateando, à pergunta “onde estou na relação com o outro? Quem, afinal, sou eu?”. No fim, o que cada um de nós carrega para a vida adulta não é a infância em si, mas a arquitetura invisível dessa primeira casa que ousamos construir dentro de nós. Que outras definições de corpo, de vida, de mundo, estão sendo criadas agora, por alguma criança, enquanto ela brinca?
Referências:
NARANJO, J. Casa das Estrelas. O universo contado pelas crianças. Rio de Raneiro: Foz, 2013.
EMICIDA. Casa. São Paulo: LabFantasma, 2015. 4min1s.


