A potência da infância na análise de adultos
- Tatiane Lindemann

- 19 de jan.
- 3 min de leitura
Atualizado: 22 de jan.
Sustento que acompanhar crianças pequeniníssimas e a subjetivação nos primórdios psíquicos permite uma escuta diferente aos adultos. Pode parecer contra intuitivo, mas percebo essa potência porque antes dessa carcaça de adulto, fomos crianças. Nossos medos infantis viram fantasmas que nos acompanham na adultez em roupagens atualizadas: alguém que vem contar em análise da impossibilidade de manter relações com pessoas pode, na verdade, estar contando de um jeito seu de afastar pessoas uma vez que teme profundamente ser abandonado. Perceba: é um temor que vem e constrói uma resposta sintomática que "protege" o sujeito de viver esse abandono ao impedi-lo de se conectar com as pessoas. Essa resposta faz padrão no seu comportamento, e podemos entendê-la como a melhor construção até aquele momento que o sujeito conseguiu fazer com seu sofrimento, realçando um grande temor que o acompanha. Esse temor é coisa preciosa, não vem do éter, mas de experiências fundantes de seu ser. De certa forma, conta como, enquanto ser humano, vamos descobrindo que lugares acreditamos ter junto do outro. Um lugar junto do outro, veja só, é uma forma possível de ser.
O caminho, porém, não se estreita até um "porquê". A proposta é pra além disso. Saber nos localiza, e permite que possamos nos descentralizar e enxergar não só nossas dificuldades, mas as dificuldades dos outros que nos criaram - e que marcam possibilidades e impossibilidades de acolhimento dentro de um laço de amor. O clichê psicanalítico desenha um Freud que aponta que a culpa é da mãe. Para além do sarro que é colocar essa frase na boca do bom velhinho - visto que sua chave de leitura apontava muito mais para as questões envolvendo a presença paterna -, distribuir culpa pode ser parte do processo, mas também não diz de todo o caminho que podemos percorrer em análise. Somos criação de uma família embebida numa sociedade com seus códigos e ordenamentos simbólicos, mas também criação a partir de um encontro: tanto das expectativas e ideais familiares como das possibilidades enquanto bebê, depois pequena criança, crescendo em tamanho e questionamentos até a adolescência e adultez inicial. Não somos apenas o que quiseram que fôssemos, mas o que construímos a partir das expectativas desses que nos colocaram no mundo. E isso, repare, desde muito pequenininhos! Discursos familiares se fazem cuidado, rotina, forma de vestir, de alimentar, de considerar e de convocar o pequeno para um lugar em que ele sente que ali ele pode "ser" junto da família. A forma como o pequeno vai reagir a esse lugar, acolher, rejeitar, querer tacar fogo, realizar, enfim, marca a agência do pequeno e suas possibilidades frente ao que o outro lhe oferece. Parte fundante da autoria de si diz do que acreditávamos que o outro esperava de nós e como isso se reatualiza hoje em dia - o que, vamos descobrindo, não é estático e, sendo uma produção nossa, podemos pegar nas mãos e modelar. Esse é o trabalho que busco construir com cada um que chega buscando escuta: um percurso que passa por se conhecer e que o acompanha nas aventuras de começar a também se desconhecer, a se experimentar de outras formas. Retomando a metáfora, conhecer a substância daquilo que acreditamos ser é importante para, com ela, podermos obrar posteriormente. Dependendo do material que encontrarmos, talvez alguns tipos de estruturas acolham melhor as particularidades da matéria que propomos a modelar. Isso é, também, caminho de análise. Justamente: com cuidado, com tempo, com a massinha e com o sintoma, podemos obrar.


